terça-feira, 9 de junho de 2009

À espera

Escorrendo felicidade dos olhos, em trilhas pelas bochechas vermelhas de frio, correu ao encontro daqueles braços que o abraçavam por inteiro. A pele quente de saudade aquecia novamente a alma. As mãos ávidas por se afundarem naquele corpo apertavam o outro o mais forte possível contra si, numa tentativa de fundir duas metades inteiras por nascença, mas separadas para um dia se unirem em comunhão de dias com mais horas que as horas para se dar mil voltas ao mundo! Plenitude assim não acontece da noite pro dia. Minto.

Esta era a imagem que estava na cabeça. Sentado a beira da cama, com os pés descalços na cerâmica fria do chão e os olhos fixos naquele retrato papel de parede em que apareciam sorrindo. Sorriso cúmplice de quem guarda pra si uma história de criança, de brincadeiras, roda e pique-pega. Inocente a imagem ali posta, natural. E muitas lembranças de pouco tempo juntos, mas intenso como deve ser o tempo dos amantes que se amam escondidos pelas brechas do dia. Apesar de não serem amantes e sim amados.

Pensava no dia que estava por chegar, mas sobretudo nos dias que ainda restavam aguardar. Longa espera de cinco dias. Como dizem os mais velhos: “o tempo passa, meu filho”. Mas nestas horas – na confusão de dias longe e ansiedades por satisfazer – cada segundo é travado pelo estalo do relógio regulando hora de acordar, hora de trabalhar, hora de comer (...) Só se esquece de anunciar a hora de tirar a cara de bobo do rosto e aquele sorriso ansioso por ser mordido novamente.

Triste é a ansiedade. Pior que a fome que mata. Aquela não deixa nem a possibilidade de remissão pelo apodrecimento do corpo. A ansiedade é como um homem morto de fome, repleto de sementes, terra, sol e água a tentar enfiar goela abaixo do chão crespo os embriões de vida. Regar e deixar a luz do sol fertilizar. Mas nunca ver sequer um ramo verde brotar do abotoado marrom que já inunda o corpo e a alma. Desejoso quase de comer lama e as sementes torradas pelo sol para não passar a fome de esperar.

Dormir também é difícil. Inquieta-se ao deitar pois não sabe se o sonho que se tem é a vida real ou se a vida que levamos acordado é na verdade o sonho que vivemos enquanto nossa alma dorme, inconsciente e letárgica neste corpo – sopro de Deus em direção ao nosso crescimento.

Cinco dias se passaram. E tudo aconteceu tão diferente da imagem que fez. Foi muito melhor.


Márcio Maffili Fernandes (09/06/09)

sábado, 8 de novembro de 2008

Um anjo triste


Era noite sem estrela, sem nuvens, sem chuva, sem lua. Podia-se dizer que naquela noite o céu havia sumido, mas ninguém ainda tinha dado o fato por percebido. Inclusive eu. Até que, em uma última súplica, recorri aos céus e dei de cara com o inexplicável. Digo última súplica no sentido de já ter recorrido a tudo o que se possa imaginar dentro da minha cabeça: pensar na vida de forma sistêmica, tentar ver pelo outro lado (não sei nem exatamente o que isso quer dizer na verdade, quando nem sei de que lado certo me encontro), pedir ajuda a amigos e algumas outras coisas. Ou seja, tudo - para não dizer em vão -, não funcionou muito bem ou como esperava.

Estava em casa, antes de uma festa do trabalho. Fim do expediente de sábado e todos foram para suas casas, descansaram, juntaram-se aos esposos e esposas, namorados e namoradas, alguns com seus filhos também, e trataram de se arrumar e de se perfumar. Eu ainda estava no “cheguei em casa”, já há um tempo. Isso porque após abrir a porta nada fiz. Minto: coloquei a pasta no sofá, tirei o casaco e o sapato. De meia, à beira da janela, estava olhando a cidade e seus movimentos desgrenhados e todas as luzes se acendendo, iluminando mais um pôr-do-sol. Do alto do meu apartamento, podia ver os últimos raios de luz tocando os prédios mais altos e as sombras já engolindo as ruas e tudo que nelas estivesse. O céu foi escurecendo até não se ver mais o astro, devorado por outros prédios e pela fumaça da cidade. Mas como já disse, ao invés de um céu, não havia nada sobre as cabeças de todos. O que surgia no lugar do azul era um desbotado e opaco nada. E logo quando eu mais precisava olhar para o alto, mirar uma estrela e pensar em Deus, esquecendo as coisas mundanas e como elas nos transtornam sem necessidade alguma.

            Abri a janela e percebi que, sem o céu, o vento havia sumido. E pensava. Quando tinha lá os meus vinte e alguns anos deixei que minha sombra me seguisse, achando que ela pudesse me alcançar sempre. Até que um dia olhando para trás vi q ela havia se perdido entre os postes. E o que é um homem sem sombra? Sem passado? Sem história? Não consigo mais me lembrar dos tempos que se foram. Lembro do hoje, do presente, mas do que um dia foi, vivi e fugi, eu me esqueci. As lembranças se perderam num bosque como borboletas recém saídas do casulo tentando voar entre os galhos, folhas e flores. O que elas encontraram pelo caminho, quem as viu passar, eu também não sei. Sei que eram tão leves e até capazes de subir com a brisa chegando às nuvens e de cair com uma chuva fina. E se numa poça alguém as encontrar, provavelmente não dará a devida atenção, até que correndo pelas sarjetas se perderá num rio e quem sabe desaguará num oceano imenso onde um peixinho possa comê-la e sentir-se saciado. E a vida tem sido assim desde então.

Com a boca seca, fui até a cozinha ainda de meia e sentia o chão frio nos meus pés ao encher o copo d’água e era possível escutar a voz da minha mãe dizendo: “vai acabar gripado, depois não reclame”. Foi sempre assim, até eu sair de casa. Ouvi um vento muito forte abrir as cortinas e esvoaçá-las. Assustado, corri para ver o que era.

Com um grande sobressalto e um copo espatifado no chão, entrei na sala. Havia uma pessoa sentada no parapeito da janela, vestida por um branco mais puro que o mais fino algodão. Tinha os cabelos finos e leves na cabeça, na altura do pescoço, estava de costas para mim e não podia ver seu semblante, se era homem ou mulher. Apesar do espanto inicial, algo deixou meu coração tranqüilo e em paz. Havia uma sensação renovada no ar, um cheiro doce e delicado como baunilha. Quando ia dizer algo, só escutei um pedido de silêncio, como se o fizesse a um bebê recém-nascido para que se acalmasse no colo: shiiiiiiiiii...

Fui andando devagar em direção a janela, sem qualquer medo ou sobressalto. Uma força parecia controlar meus impulsos e me fazia agir como se tudo aquilo fosse natural. Ali cabisbaixo, apontava lá para baixo com suas mãos suaves e cuidadosas.

E foi exatamente aí que me dei conta de que aquele menino de sorriso honesto, olhos tristes e ternos que passava na calçada e eu observava minutos atrás, era eu.  Ainda jovem, sem rugas, sem máculas, com cabelo. Um anjo, e não as borboletas veio me recordar daquele menino filho de Deus.

            Era como se o mundo fosse este de agora com seus prédios novos, carros modernos, modas outras, mas ali estivesse minha recordação viva, lá embaixo na rua. Apesar de distante, podia ver com detalhes cada expressão no rosto daquele garoto-eu. E não foi como se passasse um filme da minha vida. A sensação que eu tinha é de que nunca deixei de ser aquele que eu via, que ele continuou sempre a levar a minha vida, independente de mim.

            Foi ai que pensei em quando eu o abandonei e quis ser adulto. Em que esquina ele ficou para trás sozinho, perdido, sem rumo? Isso era o que menos importava naquele momento. Meu ímpeto era de correr até o elevador e ir atrás dele na rua me afogar entre as pessoas e carros até poder olhar aqueles olhos, que nunca tiveram a chance de ver no que deu a minha vida. Mas tive uma vergonha imensa de mostrar que, de todas as expectativas, só restaram frustrações.

            E foi assim que entendi o que era realmente a felicidade e sua expressão mais bela e fiel na vida. Pra começar o anjo estava triste sim, mas porque já havia tentado falar comigo diversas vezes e não conseguia ser ao menos percebido por mim. Depois, ver eu ali naquele tempo, hoje já distante, me mostrou o quanto era feliz e sabia! Era a felicidade em sua expressão mais natural e pura. Aquela que não se compra, não se pede, não se ganha nem do Papai Noel.

            A felicidade estava ali, estampada naquele eu andando na rua porque tinha um mundo de oportunidades na minha frente. Ali estava claro que poderia criar as expectativas que quisesse, esperanças que na minha cabeça brotassem eram fontes das mais abundantes de minhas fantasias. A felicidade não está em si na realização, mas sim em apostar em algo e acreditar. É ter fé no amanhã, mesmo tendo que ir a pé pra casa pra poder comprar cem gramas do biscoito mais gostoso do mundo - de nata com cobertura de chocolate - para ter a sensação de seu desmanchar na boca. E andar a pé ser uma oportunidade de estar com os melhores e mais importantes amigos. Compartilhando aqueles biscoitos e a vida em si mesma! Risos, lágrimas, sonhos, dores, saudades. Ou apenas rir das pessoas na rua a nos olhar sem entender aquelas gargalhadas, ou o pranto jorrando pela face.

            Foram muitos passos juntos, muitos dias, muitas palavras, muita sola de sapato e muita dor de barriga de tanto rir!Muita felicidade sim!Inocente, clara, leve, sem culpa!

            Foi me lembrando disso tudo que, ao observar melhor, vi que o menino-eu não estava sozinho lá na rua. Havia três amigos com ele. Um calmo e amoroso companheiro de estradas diversas; um astuto, bem humorado e inteligente parceiro de vida; e uma moça, Capitu de Machado, fruta doce de quintal como pitanga.

            No balanço das lembranças, o anjo num salto sumiu pelo vão da janela acenando um adeus e esboçando um sorriso de canto de boca. O céu se fez estrelado e já não via aqueles quatro andando na rua.

            Preciso encontrar aqueles três e eu. Mas como faço isso nestas ruas tão cheias? Se você os reconhecer por ai, pare-os na rua e diga para aparecerem aqui em casa! E que tenho saudade do abraço. E que estou preparado para ser feliz de novo.

Eu corri descalço até a calçada, mas já os havia perdido de vista. Ah, diga também para que tragam todas as borboletas que encontrarem pelo caminho!

Márcio Maffili – 8 de novembro de 2008

sexta-feira, 2 de maio de 2008

No céu, no mar, na terra! (2 de maio de 2008)

Não é de hoje que muitas mulheres, em torno de seus anos todos (acredito que senhoras ainda hoje), sonham em serem aeromoças. Na verdade, hoje em dia uma profissão como qualquer outra, mas, naqueles tempos idos, o status do uniforme sempre alinhado, a beleza pressuposta, o fato de conhecerem os lugares mais distantes do mundo e mesmo por cruzarem os céus, tudo isso e muito mais atraia os olhares mais sonhadores. E se era sonho das moças, não podemos nos esquecer que também era sonho dos moços. Por tudo dito antes, e uma pitada de incertezas – afinal de contas nunca se sabe pra onde elas estão embarcando no dia seguinte, quando desfilam pelos corredores dos aeroportos -, a profissão tornou-se fetiche, sendo possível contratar strippers com os mais variados uniformes e disposições - assunto este que não bem vem ao caso agora.
“Bom dia, é um prazer recebê-lo em nossa aeronave!”. Poxa, e tem como não se sentir bem desta forma? Você pede uma cerveja, ela traz sorrindo. Serve sua refeição e você nem precisa arredar a bunda do lugar. E melhor: ainda volta pra recolher pratos, talheres, copos etc. O que mais alguém pode querer? E outra: qual homem nunca se apaixonou instantaneamente por uma?
Só me questiono uma coisa: porque hoje é tão raro encontrar empresas dispostas a treinarem seus funcionários para melhor servir? Penso que as aeromoças deveriam substituir secretárias, recepcionistas, comerciantes, operadoras de telemarketing, garçonetes e todas as outras profissões possíveis. O mundo seria muito melhor assim. Seria, literalmente, ser tratado como se o Céu tivesse descido a Terra. Imaginem só a maravilha que seria se ao invés de um motorista de coletivo, fossem aeromoças pilotando os ônibus pelas ruas da cidade? Ecoariam pelas avenidas em voz calma, sensual e precisa: “próximo destino: cascadura”. Ou para a alegria de alguns: “Next stop: cascadura station”, como no metrô do Rio.
Pensando bem, há sim alguém que possa não gostar da existência delas. E mulheres mesmo: esposas acompanhadas de seus ilustres maridos devem, em alguns momentos, sentirem-se ameaçadas por aquela que, por mais horas passe viajando, não fica descabelada nem com cara de quem acabou de acordar. E é neste ponto que surge um fato: a cada dia cresce o número de aeromoços – opa, opa, deve ser por isso que a expressão caiu em desuso sendo empregada uma palavra tão mais sem graça e sem efeito: comissárias(os). Moços que voam definitivamente não são bacana.
E as situações mais curiosas acontecem todo momento pelos céus. “Passageiro Silvio Santos. Passageiro Silvio Santos: favor comparecer à cabine”. Instante de silêncio e todos procurando o locutor e apresentador. Mas quem surge é um adolescente. “O tempo estimado de vôo é de 5 horas, o clima está bom, a temperatura externa à aeronave é de 54ºC negativos”. Ah, sim. É por isso que está cheio de cristais de gelo nas janelas. E esse vento gelado congelando minhas pernas? Será que vem lá de fora? Pra que ar condicionado se lá fora está tão frio? Ainda bem que me avisaram porque caso eu passe mal, não abro a janelinha. Mas e a curiosidade: qual som faz lá fora quando não passa algum avião?
E é nestas horas que uma expressão tão antiga torna-se um alarde terrível: “olha o passarinho”, diz o tio coruja para a sobrinha, e todos espantados olham pela janela. Ou a melhor de todas: a aeromoça retira do bagageiro uma pequena maleta autonomeada “Demo Kit” (só pode ser coisa ruim), e anuncia as medidas de segurança em caso de despressurização da cabine e pousos de emergência (não disse que era ruim). E é neste momento que nunca consigo olhar para a aeromoça “muda” fazendo gestos mecânicos como se robô fosse e matando qualquer um de vontade de rir. Melhor seria se ela dublasse o que a outra diz ao microfone. Nada tira da minha cabeça que há um rodízio entre as que vão ler e as que vão fazer papel de bobo da corte e mais: as que ficam lá atrás ficam sempre rindo umas das outras. Não é possível que existam voluntárias para isso.
Fato é: como anjos, são elas que nos guiam até as nuvens, nos fazem sentir bem mesmo a muitíssimos pés de altitude, nos servem e estão sempre dispostas a resolver qualquer problema que possa surgir. Que Deus, em troca deste trabalho bem realizado, possa assim tê-las sempre pousadas em Suas mãos, cruzando os céus nos mais diferentes destinos.
Mas foi na área de embarque de táxis de um aeroporto que, esperando na fila por um táxi, debaixo de uma chuva terrível, um carro passou jogando água suja da rua em todos que estavam ali. E foi da boca de uma mulher com suas malas em mão que saiu: “oh seu fedaputa!”. Olho para o lado, e vejo a aeromoça do meu vôo. Se a boca dela não tivesse sido tão rápida, teria a minha feito esta gentileza.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Um Presente (24 de agosto desde 2005)

me dê sua mão,
vem comigo
vamos correr meio mundo
em busca de um porto para o céu
onde pegaremos um barco a vela
destinado a algum lugar longe
longe de tudo
quando poderemos ser felizes

vamos,
acelere o passo
suba montanha,
desça rio,
atravesse lago
e se precisar te ajudo
mas seja depressa
o momento é agora
não podemos esperar

segure firme,
agarre-se na cauda de nuvens
pule florestas, cidades, pastos
somos eu e você em busca
de você e de mim

não pergunte
sinta e não pense,
estou aqui
veja a estrada aberta até nosso porto
-visível para nós dois apenas-
e, avistando o grande lenço branco
despedindo-se dos quatro ventos,
aperte o passo
chegaremos a tempo
e finalmente embarcaremos
rumo alguma estrela
onde a luz do dia não se apaga com a noite
e a vida é possível
(ao seu lado)
Márcio Maffili Fernandes

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Lar, doce lar (num ano qualquer)

Estou da janela desde mais cedo e nada me chama atenção na rua. É tarde, naquele período crítico em que as pessoas saem do trabalho e o movimento é caudaloso. Não tenho nada em especial por fazer:uma pia cheia de pratos, copos e panelas para lavar e uma pilha de roupas sujas empilhadas sobre a máquina de lavar. Realmente nada que pudesse me inquietar. Minha esposa ainda não chegou em casa. É, ela chega quase sempre depois de mim. Na verdade sou eu que quase sempre nunca saio. Dizem as línguas, boas ou más, que ela é quem me sustenta. Acham que escrever é tarefa fácil e que não falta inspiração a um escritor.
Deixei todas as luzes apagadas e os aparelhos desligados. Mentira, o ar condicionado está ligado mesmo tendo a janela aberta a minha frente. Sensação curiosa esta: o ar quente de fora vem em baforadas contra meu rosto enquanto aqui está tão frio.
Não, não esqueci de buscar os filhos na escola. Ainda não tivemos a dádiva de encher a casa, cuidar de pequenos arranhões, ensinar a andar, falar e assim por diante. Não é que não os queira, o momento não parece apropriado. Joana trabalha tanto que muitas vezes a vejo apenas no café da manha. Estranho. Ela disse que chegaria mais cedo hoje e nada da campainha tocar. Ela sempre alertava que estava abrindo a porta e adentrando o lar, como se dissesse "bem, cheguei" e nunca dizia qualquer palavra. Estranho eu disse que arrumaria a cozinha mas ... enfim. Deve ser o trânsito.
Invenção interessante é a buzina, não é mesmo? Olho para baixo e ouço uma sinfonia em som nada harmônica. Ninguém gosta de receber aquela buzinada no ouvido, contudo todos adoram causar um alarde. E quanto barulho hoje. Preste atenção, nem dá para ouvir os motores, somente um monte de buzinistas, músicos sem qualquer dom para a vida social, a entupir os ouvidos de motoristas, transeuntes, moradores e quem mais estiver por perto, ou até por longe. Alguns devem pensar que podem assim abrir o mar de carros, repetindo a cena bíblica. Muita boa vontade é necessária.
Vai escurecendo azul o céu entre os prédios e a fumaça embaça o longe, até onde se possa ver. Não tenho este costume de observar o céu, muito menos de ficar da janela, pendurado além das paredes, hoje enormes. Hoje eu precisaa ver tudo de cima, distante do chão o quanto pudesse. E do alto ver o formigueiro humano - imagem por demais vulgar mas tão precisa. Ah, nem tanto assim: somos formigas às avessas, e como.
E então ouvi um barulho na porta, a maçaneta do quarto gira e nada. Sem perceber havia me trancado. Joana? Desta vez ou ela se esqueceu de me avisar que chegara, ou por curiosidade queria ver o que tanto fazia dentro do apartamento na sua ausência. Ao abrir a porta percebi que, de fora do quarto, a tv dava as notícias da noite para os móveis da sala. É, a tv também estava ligada.
- Olá!
Entre o que disse e sua resposta transcorreu tempo suficiente para me deixar afoito.
- Você nem para arrumar a casa, hein!
- Você nem para chegar mais cedo...
Findo o diálogo: luz acesa, janela fechada. Vou para a cozinha e começo a juntar os restos do nosso café e do meu almoço. Tudo separado, inicio a lavagem pelos copos. Formigas andam entre os azulejos apressadamente. Atravessam o mesmo caminho em dois sentidos e parecem conversar ao se depararem uma com outra. Devem estar dizendo: "vamos, há ainda muita comida por carregar". E me perco naquela confusão de minúsculas vozes. Como falam estas formigas, não me recordo de ver outra espécie tão tagarela. E como vivem felizes!
Terminada a pia, acompanho com os olhos o trajeto delas até a mesa. Atravessa azulejos, desce pro chão, passa sobre o tapete, sobe a parede oposta até chegar à borda da mesa onde um punhado de açúcar do café da manhã repousa branco quase escondido pelas patas, bundas e antenas negras e pequenas. Quem se importa com um pouco de açúcar na mesa.
Vou para sala e no intervalo da novela me pego pensando em virar formiga. Formiga de verdade. E sair em busca do meu torrão de açúcar.
Márcio Maffili Fernandes

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Devaneios d’outros (2006) (a Rubem Alves)

Sabe a vida o que faz de nós, se sabemos o que fazemos dela. Pensava a senhora escolhendo a alface mais verde e folhosa na feira perto de sua casa. Havia acordado ainda a sonhar há menos de uma hora. Fez as preces matinais ao lado de Nossa Senhora da Rosa Mística, que ficava próxima à sua janela, ao lado da cama. Era devota fervorosa da santa, a quem se sentia devedora por uma intercessão milagrosa: aproximava-se da morte após dura cirurgia para retirada do útero infeccionado, quando as irmãs em prece pediram a Ela por sua vida. Muitos anos se seguiram, muitas outras doenças e complicações apareceram, mas até hoje a mesma santa participa suas queixas e agradecimentos aos céus.
Diriam (aqueles que não a conhecem bem) que se recordava sempre do marido logo ao primeiro ar da manhã penetrar-lhe consciente as narinas. Mentira. Em momento algum ela deixara de viver em função dele, mesmo depois de sua morte - o coração um dia parou e nunca mais ela ouviu seu doce "bom dia amor". E os dias deixaram de certa maneira de serem bons dias. E passaram apenas a serem dias, como quaisquer outros, não importando serem terças, sábados ou quintas. Ausência sempre abre uma lacuna nas horas, faz razão obscurecer, mesmo que quase tudo siga como antes.
Escolhido o pé de alface, tomou o caminho de casa. Almoçaria sozinha, era quarta-feira. Viúva por anos, sem filhos e uma única fotografia na sala, exposta para si. Amarela e fosca. A ansiedade das mãos dadas, o sorriso assustado pelo flash, o vestido e grinalda mais que brancos, o arroz chovendo nos cabelos e convidados ao fundo. Este era o quadro de seu casamento.
A cada pedra atirada contra o outro, guardamos em nossos bolsos uma pedra exatamente da mesma cor, tamanho, peso e textura. E então riu saborosamente. Ele não se aguentou ao lembra-se deste ensinamento dado por seu pai. E ainda ao lado do caminhoneiro que acabara de xingá-lo através das mais escabrosas palavras, sorria. O trânsito estava realmente complicado, ele havia fechado o caminhão, mas nada demais. O filho assustado no banco de trás, preso ao cinto, estava de olhos arregalados, vidrados. E o pai sorrindo, imaginando o caminhoneiro a cada injúria arremessada a ele escolhendo uma pedra de uma fonte inesgotável delas, em conformidade com a agressão desferida. E já sem espaço em seus bolsos, acumulando pedras entre os braços e seu corpo, entupindo a cabine já sem poder se mexer lá dentro. comprimido por todos os lados e pesado.
Guiou o carro até mais a frente, enfim haviam chegada à escola do garoto. O pai ainda esboçava largo sorriso e o filho ainda assustado desenganchou o cinto, beijou seu pai e desceu na calçada. Ia andando, dizendo "tchau pai", e este o gritou pelo nome, precisava lhe dizer algo. Em pé na calçada, ainda esboçava um sorriso ao lado do filho. Ensinamento de pai para filho: pai agachado, barulhos, brilho nos olhos, sorrisos e um abraço. Apenas um, bem apertado.
Que Deus duvidasse sim dela. Poderia não duvidar de qualquer um, mas dela não. Queria mais é surpreendê-lo, ir além do que Ele pudesse ter pensado para ela. Não se sentia extraordinariamente mais capaz que ninguém, mas sentia que podia muito. Mas ainda exitava, e levou o questionamento ao marido quando este chegou em casa. É possível a Deus duvidar? Provavelmente sim, indicou o esposo convicto, mesmo em dúvida. Lembrou a ela de que tudo é possível a Ele. Mas duvidar da própria criação? Surpreendeu-se ela própria com a contra-argumentação que lhe surgia e foi preparar o jantar com a ajuda do marido, ambos incógnitos. Ambos amam e isso é suficiente apesar de não saberem.
O suficiente é sempre mais importante do que o desejado. Na verdade o desejado é sempre mais importante, equivocadamente. Acho que as vezes não me basto e crio pessoas que vejo na rua. Dou-lhes história, sentimentos, problemas e até pensamentos. Sou bondoso com elas na maioria das vezes por identificar-me com suas dores e alegrias. Não sei o que ando fazendo da minha vida, se atiro pedras e muito menos se Deus duvida de mim, mas tudo me preocupa e me sinto melhor assim.
É necessário boa-vontade aos homens e isso estes homens que crio têm. Se fosse escrever a um extra-terráqueo relatando a ventura de viver na Terra, diria: pode não parecer, mas boa vontade não falta a estes meus companheiros. Talvez lhes falte um lugar, diferente de todos que conheço onde eles caibam juntos. Olho no mapa e acerto com os olhos: Boa Esperança aos homens de boa vontade. Seria suficiente, não?
Márcio Maffili

domingo, 7 de outubro de 2007

À luz de vela ( 13/10/2005)

Preciso confessar alguma coisa a você; ou várias: não sei até quando você suportará me ver falar. Na verdade quer realmente saber? Todas as pessoas que procurei nestes tempos não me deram muita atenção e me restou apenas você. Não porque tenha pouca consideração por quem representa pra mim, não é isso, me entenda: me é difícil ser franco contigo, apenas isso, o que já se faz muito.
Pensando melhor não perca seu tempo comigo. Antes pararmos por aqui, não ficarei chateado. Sozinho me viro e continuamos companheiros. Digo isso porque talvez lhe doa um pouco também. Tenho a alma dolorida e a comunhão do sofrimento é perigosa demais. ( Pausa para pensar e decidir em seguir ou não.)
Há um tumulto lá fora. Corre-se atrás, de, para - sem nem se saber o passo. Ninguém percebe o próprio passo. O som é quase ensurdecedor. Quão vorazes são os homens, somos nós, eu e você, embora não creia nisso. É isso que me assusta. Mas você não sabe disso, de mim, da pobreza de minha alma. Sou inofensivo, contudo não sou um anjo, não sou verdade. E isso é por demais cruel.
E de frente ao espelho do banheiro é que vacilo em acender a luz. Não enxergo nada há dias. Só o barulho abafado pelas portas e janelas toca meu corpo. Encharcado de banho, respingo no piso e formo poça, como se derretesse ali estático diante da pia. Eu a poça. Penso em me desfazer com ela entre as frestas e rejuntamentos e escorrer pelo ralo. Mas temo tudo; quase tudo: frio, fome, solidão, incapacidade, altura, escuro...medo de ter medo.
Num estalo faço a luz acender com os dedos enrugados d'água. Abra os olhos e me vejo cego diante do espelho. Vejo apenas reflexos em flashes de claridade e escuridão. Estou tonto e reuno forças para me manter de pé. Me apóio na pia sem vê-la. Pela primeira vez enxergo: por isso a cegueira.
Diante dos meus olhos a vida se desembaça no espelho. Pouco a muito, com a ponta dos dedos, desmancho a névoa que escorre em gotas frias. Dói como se parede eu fosse e tivesse a tinta arrancada em cascas com uma espátula de aço. E aos poucos se expõe o reboco, aspero, grosso e feio. E frágil. Me envergonho ao me mostrar assim a você, sem as belas molduras com paisagens de antes.
A água do meu corpo ferve com a febre que me percorre. Penso em apagar a luz, ainda não vejo direito e me surpreendo com o passar da dor. Você a viu vaporizar com a água?
Um clarão muito forte interrompe o banheiro. Um trovão muito claro treme janelas, paredes e a luz se apaga. Só então ouço a chuva que gotejava há tanto tempo no vasculhante. Obrigado a esta nova cegueira de luz, fico ansioso por ver o espelho. Onde está sua imagem? O que se vê em um espelho no escuro? Com a mão ainda a desembaçá-lo, sou tomado por forte ansiedade. Tenho certeza de que agora posso ver, mas sem luz...não posso te tocar.
Corro ainda nu a tatear movéis pelo corredor, sala, cozinha. Encontro vela no armário. Tropeço na mesa, fósforo na mão, fumaça e luz. Baça e insistente chama me ilumina. Volto ao banheiro e com os olhos de ver, lhe vejo. À minha frente, assustado, pupila dilata pelo negrume do ar, rosto respingado, imagem-reflexo. Toco ao avesso sua face angelical. Um mar inteiro se forma em seus olhos densos, penetrados nos meus.
Obrigado por me ouvir e me ajudar à sua forma: era tudo de que precisava agora. Não questione e nem precisa esboçar este sorriso tão lindo, sei que se feriu um pouco. Mas me perdoe. E me perdoe as imperfeições, serei mais forte de hoje em diante, não como tentei antes. Tudo me importa, você me importa.
Agora siga adiante, segue rumo. Estarei sempre com você, sendo você de hoje em diante. Sopro a vela e aguardo em pé a chuva passar.

Márcio Maffili